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Há hoje uma miséria afetiva

A psicoterapeuta Liane Zink fala com maestria sobre a relação do corpo e da mente, os reflexos de um sobre o outro, os cuidados que as pessoas devem ter, a exaustão que o ritmo intenso provoca. Diretora geral do Instituto de Biossíntese do Brasil, Liane traz um alerta para as pessoas: é preciso parar, que seja um minuto, mas parar é necessário para que entrar em contato consigo  mesmo.

“Nesta vida moderna, maluca que a gente anda, as pessoas não estão conectadas com o corpo. As pessoas respiram mal, comem mal, não fazem exercícios e isso faz com que elas se desconectem”, analisa a especialista, que participou em Natal de um evento que marcou os 20 anos da Biossíntese no Brasil.

A conversa com Liane Zink é um duplo alerta: para as pessoas cuidarem de si mesmas e despertarem atenção para o próximo. “Estamos vivendo no mundo líquido, onde tudo escorre pelas nossas mãos, as relações são líquidas e tudo é passageiro”, comenta.
Liane Zink observa que o volume de informação é tanto que as pessoas não conseguem digerir e chegam ao que a especialista chama de “miséria afetiva, sexual”.

Para conhecer um pouco mais do ser humano e se conhecer, eis o 3 por 4 com Liane Zink.

O corpo fala?
Sua pergunta é muito pertinente porque o corpo fala. Ele indica quando está deprimido, indica quando está com angústia, com ansiedade. Você já viu uma pessoa ansiosa? O que ela (a pessoa ansiosa) não pára, respira mal, vai para frente, vai para trás o tempo inteiro. O corpo, realmente, fala e a gente consegue entender quais são as dicas que ele está dando de que alguma coisa não está bem com ele.

Falta para as pessoas uma capacidade de entender melhor ou tornar as falas do corpo mais discretas para não exalar tanta emoção?
Acho que falta não apenas o entendimento, mas uma integração: está conectado com o corpo. Nesta vida moderna, maluca que a gente anda, as pessoas não estão conectadas com o corpo. As pessoas respiram mal, comem mal, não fazem exercícios e isso faz com que elas se desconectem: a cabeça vai para um lado e o corpo vai para outro e aí não tem nenhuma integração entre as duas partes e isso é algo mais importante para se pensar.

E qual o resultado dessa desconexão do corpo com a mente das pessoas (como a senhora relatou)?
Como os dois funcionam juntos, é uma unidade funcional, a gente pode ter doenças que sejam só no mental ou doenças que são corporais. Mas as duas (mental e corporal) estão o tempo inteiro interligadas. A gente pode ter pessoas que ficam muito deprimidas e esse é um tema do momento porque as pessoas deveriam falar isso: socorro estou deprimida. Essa depressão tem a mesma situação no corpo. Estou deprimida na minha cabença, no meu mental, com uma angústia, triste, e a gente olha o corpo da pessoa a cabeça está baixa e, ao mesmo tempo, o corpo pode está com uma colite nervosa, com um problema no fígado, com problema no pulmão. As coisas são muito interligadas. Não existe uma dissociação. Se o mental está doente o corporal está doente. Se o corporal está doente o mental está doente. É só a gente aprender a ler o caminho que vamos seguir para prevenir essas doenças que estão aí no mundo.

Falha mais o espectador que não consegue ler o corpo com quem ele está conversando ou falha mais a pessoa que não consegue se expressar para o espectador?
Então essa é uma boa pergunta. A pessoa não sabe e não entra em contato porque não tem tempo. A gente vive em um momento da era da hipervelocidade. Eu nem sei o que o meu corpo está sentindo. Eu me anestesio para entrar no mundo. As coisas estão muito rápidas e o outro que está comigo, que você chama de espectador, ele também não consegue ver muitas vezes que você está tão deprimida e só vai ver isso quando a coisa já está em um estágio que não dá mais para ajudar. Eu não mostro muitas vezes ou quando mostro está em um estágio avançado. Estamos aqui falando muito de depressão, mas tem outras coisas também que são tão ruins quanto a depressão, a ansiedade, angústia, toda essa coisa que as pessoas reclamam, cansaço físico que é algo que vejo muito no consultório. As pessoas reclamam muito que estão exaustas. Essa exaustão é das questões emocionais que não conseguimos aguentar e a cabeça vai ficando grande.

Nessa análise macro, o que está havendo com as pessoas que chegaram à exaustão?
Esse é o nosso mal do século. Estamos vivendo no mundo líquido, onde tudo escorre pelas nossas mãos, as relações são líquidas e tudo é passageiro. E tudo isso com uma hipervelocidade. Veja o Robin Williams, como não viram que ele estava deprimido para chegar nessa situação? Foi como se não tivessem enxergado a depressão dele. E hoje estamos falando de outras coisas porque a velocidade é tão grande que o Robin Williams já ficou lá. É tanta informação que o organismo não consegue digerir. Estamos vivendo um processo onde a digestão não está existindo. Então tem uma miséria afetiva, sexual, um adoecer das pessoas por esse atropelamento que a vida está dando um ritmo de hipervelocidade.

E o que fazer nesse contexto de hipervelocidade quando somos atropelados? Parar?
A biossíntese o que mais propõe e está muito moderno nessa história das doenças psicosomáticas não é parar é aprender a meditar. Uma das grandes questões é essa. A meditação transforma o cérebro. E uma das grandes questões que a biossíntese propõe é meditar.

Como se faz uma meditação?
É respirar mais profundo. Significa ficar mais conectado com você mesmo. Que seja dois segundos pela manhã que a pessoa pare para meditar profundamente, entrar em contato consigo isso já vai modificar muito a a qualidade de vida.

A senhora falou no início dessa entrevista que as pessoas não sabem mais respirar e se alimentar. Em que as pessoas devem se centrar?
É tudo junto. Essa é a questão da biossíntese que é uma integração da vida. Na verdade, passa por tudo isso, boa alimentação, respiração, fazer exercício. Na adversidade você precisa achar a saúde, a prevenção. Tem que respirar mais profundamente, você precisa sentir e digerir a respiração. Respire um segundo que seja, medite um segundo. Pequenas coisas do seu cotidiano podem lhe ajudar a ter uma saúde melhor.

A senhora falou sobre depressão e lembrou o caso do ator Robin Williams. Como explicar uma depressão por trás de uma grande alegria estampada?
Agora foi profunda essa questão. As pessoas que estão deprimidas quando elas não sabem da depressão delas colocam uma máscara do medo que se tem de entrar em contato com a depressão. Depressão é algo que dói, dá uma dor na alma. Não é uma dor só no corpo. É uma dor na alma e as pessoas escondem isso com uma máscara. É o medo de entrar em contato com a dor na alma. As pessoas não percebem que por trás de uma falsa alegria ou de um comando de dizer que precisa continuar na vida, a alma está sofrida, doída, calada, apequenada. Esta que é a questão que a gente não enxerga porque o próprio deprimido esconde com medo de entrar em contato com essa dor profunda. É uma dor profunda.

É medo ou preconceito que o deprimido tem da depressão?
Hoje já não tem tanto preconceito. Muitas pessoas fazem terapia, mas existe ainda o preconceito. Mas existe também o medo de encontrar o que a pessoa tem dentro dela. As pessoas acham que o que tem dentro delas é feio e preferem viver da máscara, do falso.

A saúde do corpo é reflexo da saúde da mente?
As duas coisas vêm sempre juntas. É uma unidade que funciona junto. Toda essa história das dores no corpo são as emoções projetadas no corpo.

Se a senhora tivesse que dar um conselho, como cuidar da pessoa mesmo?
Pegue alguns minutinhos do dia-dia para se aquietar no silêncio e cuidar de si. Faça meditação. A meditação ajuda, inclusive, a reverter doenças graves.

Bate e volta
Onde entra a fé nesse seu contexto: Se isso ajuda as pessoas, tem igrejas que se proliferam em cada esquina, o que vejo na igreja é questão de comunidade. A comunidade se ajuda de tal forma, se é o que lhe acalma, acho fantástico.

Qual o grande sentimento do ser humano: de alegria, do prazer, da busca do prazer, da busca da alegria de viver um pouco mais em contato consigo mesmo.

Liane Zink é trainer internacional e diretora do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo e do Instituto de Biossíntese do Brasil. Trabalha regularmente com grupos de formação na Alemanha, Portugal, República Tcheca, Japão, Israel, Moscow e diversas cidades do Brasil. Foi Fundadora e Diretora do Ágora Centro de Estudos Neo-Reichianos. É Diretora do Ágora na Alemanha.