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Que tal experimentar a vida de braços abertos?

O que faz alguém se lançar no mundo com coragem, determinação e alegria? A confiança - e a própria palavra tem em si mesma o segredo de como ela nos dá essa força que permite ultrapassar os próprios limites e medos para acreditar na begnidade da existência. Confiar vem do latim con fides, isto é, com fé. A confiança, portanto, é uma questão de fé.

A gente pensa que a fé pertence ao universo da religião, mas não é só isso. É a fé que nos preenche o coração na hora de nos atirarmos num projeto, nos entregarmos em relacionamentos. Não se pode saborear plenamente a vida sem fé. Ela é nosso mais poderoso catalisador de energias.

E fé é muito mais que crença ou dedução de um raciocínio lógico. Ela é incondicional e, basicamente, um exercício dinâmico de coragem. E coragem, como o próprio nome diz, é ter o coração na ação. Quando colocamos o coração naquilo que fazemos, somos impulsionados pela fé, pela confiança. Ultrapassamos assim uma série de bloqueios e obstáculos, internos e externos, com resultados impossíveis de serem atingidos sem sua presença.

Por isso a confiança é tão poderosa. Dezenas de pesquisas mostram que a fé é decisiva para a manutenção da saúde, por exemplo. Pode ser tanto a fé em Deus quando a fé na vida, num sonho, num projeto. "Ela é fundamental para nossa saúde física e psíquica", diz Sueli Gevertz, psicóloga e coordenadora de comunicação da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Couraças musculares

Contudo, em algumas situações, experimentamos o principal motivo da perda da confiança e da coragem de estar de peito aberto: o medo da dor. Esse temor, segundo o criador da bioenergética, Wilhelm Reich, vai se refletir no corpo formando couraças musculares, que são a corporificação física dos nossos medos e defesas. O medo, como as couraças, é necessário na vida, porque nos protege e nos ajuda a sobreviver. "O que não pode é sempre querer enxergar a existência apenas através dele", diz a psicoterapeuta corporal paulista Irene Cardotti, especializada em bioenergética e terapia ocular. Isto é, há o momento da couraça, do escudo e da defesa, como também existe a hora do peito aberto e da entrega. E como fazer essa escolha com sabedoria?

Uma das respostas é se manter firme sobre seu próprio eixo. "Quando a gente tem os pés bem plantados no chão, está firme, seguro. Temos confiança porque sabemos que não é qualquer coisa que vai conseguir nos derrubar", diz Irene.

Outra saída para dissolver as couraças é ativar o corpo com exercícios de flexibilização, como ioga, tai chi, dança, circo, alongamento e práticas de bioenergética. E saber descarregar o excesso de energia na terra, andando descalços, por exemplo. "É preciso aprender a reconhecer que não podemos carregar pesos emocionais em excesso. Eles podem se acumular no corpo, na couraça dos ombros, por exemplo, e a gente fica como se fosse o gigante Atlas, carregando o mundo nas costas, curvado, tenso, incapaz de abrir os abraços, mostrar o peito e confiar no mundo", afirma a psicoterapeuta.

Mas o que dizer se realmente a gente foi muito machucado durante a vida? Como voltar novamente a confiar no mundo? Podemos fazer isso a partir de nós mesmos: reaprender, aos pouquinhos, a nos presentearmos com pequenos prazeres, apostar de novo em nossos sonhos e ideais, descobrir novos talentos e dar um voto de confiança ao futuro. Talvez seja preciso terapia ou a ajuda de um grupo de apoio, mas o caso tem solução e certamente o sol poderá voltar a brilhar outra vez.

Como água no vasilhame

Quando se mora quase 30 anos fora do Brasil em nove países diferentes, enfrentando realidades tão distintas quanto a de belas cidades de pedra do século 17 na Bélgica ou o ambiente úmido da floresta amazônica no Suriname, é preciso ter uma confiança básica e elementar na vida. É o caso de Mônica Vilhena, que foi oficial de chanceleria do Brasil no exterior. Ela tem uma maneira poética de se expressar sobre esse assunto: A confiança é como a água, que se adapta a cada vasilhame. Ela está sempre ali, independentemente do que acontece. A situação pode mudar que ela não desaparece nem muda de volume, diz ela. "Essa é a confiança verdadeira", assegura Mônica, que tem a humildade e a abertura necessárias para se adaptar a diferentes cenários. Ela enxerga o sucesso e a realização em cada situação e não vê a vida como uma sucessão de êxitos e fracassos. "Por isso, não se pode perdê-la nunca", diz.

Para manter essa maneira de encarar a vida, Mônica se apoiou na sabedoria do corpo. Há 22 anos pratica e ensina biodanza, método criado pelo antropólogo chileno Rolando Toro. Apreendeu a sentir as dores emocionais sem sucumbir e a resgatar uma confiança na vida, com base, principalmente, em movimentos corporais. É só olhar para uma pessoa confiante: ela diz isso fisicamente, por meio de suas expressões corporais. "E o primeiro passo para viver isso é se apoderar do próprio corpo, vivenciá-lo, senti-lo e liberar as dores emocionais que podem estar aprisionadas nele. Isso é muito curativo", afirma a instrutora.

"A pessoa que confia está a léguas de distância daquele otimista insuportável que sempre acha que tudo vai dar certo", afirma a psicoterapeuta carioca Natália Assunção. O otimista quer que as coisas dêem certo, custe o que custar. Já a pessoa confiante exala naturalidade, graça, leveza e não é obsessiva, diz Natália.

Então é isso: quem confia se sente seguro e tem fé na vida, não importando o que vai acontecer. Prepara-se, física e psicologicamente, tem ajuda ou pede por ela, treina muito e depois de um baque, é até capaz de dançar com um sorriso sobre o próprio fracasso.

Livros para saber mais
Do Desabrigo à Confiança, Bile Tati Sapienza, Escuta
Fontes da Força Interior, Anselm Grün, Vozes
Construa Confiança, Robert Solomon e Fernando Flores, Rocco

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