Leituras

Trabalhando com o corpo - Helena Campiglia.

Trabalhando com o corpo do paciente, é possível lentamente desvendar alguns mistérios de sua psique, pois cada parte do corpo apresenta, paralelamente, uma função psíquica e emocional. Os diversos níveis corporais, os órgãos internos e suas funções representam possibilidades de abordagem corporal e simbólica, com o fim de estimular conteúdos psíquicos.”

“Ouvidos: 

Os ouvidos são dentre os órgãos dos sentidos, os primeiros a entrar em contato, durante a vida fetal, com o meio externo. Já na vida intra-uterina, o feto é capaz de distinguir sons do meio externo que se propagam pelo líquido amniótico. Tapar os ouvidos proporciona uma sensação de isolamento e afastamento dos ruídos e da excitabilidade do mundo externo.

Nas terapias corporais, principalmente na vegetoterapia, o trabalho com os ouvidos permite investigar a fase intra-uterina. Em medicina tradicional chinesa (MTC), tradicionalmente, os ouvidos são associados aos rins, que também são responsáveis pela energia fetal e pela vida intra-uterina.”

“Olhos:

Os olhos representam a capacidade de enxergar, vendo o ambiente e codificando-o internamente; de ver as pessoas e entender o que são para nós; de observar uma situação e compreender o seu significado implícito.

Problemas nos olhos podem alterar a visão do mundo e deturpar os valores pessoais. Na miopia há maior facilidade de ver o que está próximo, na hipermetropia, o oposto. Míopes enxergam melhor suas relações íntimas e próximas e pessoas com hipermetropia têm mais facilidade para visualizar situações distantes, projeções futuras, relações sociais.

Quando se lida com os olhos, em terapia corporal, trabalham-se as relações entre a realidade externa (o que se vê) e a realidade interna (o que, de fato, percebe-se). Os olhos são um ponto-chave em terapia, pois quem não vê onde está, não pode sair do lugar, fica perdido em confusão e dispersão. Mobilizar os olhos e o olhar ativa a percepção do ambiente, das distâncias entre o eu e o outro, dos pontos de referência internos e externos.”

“Nariz:

O nariz é via de entrada do ar, portanto, a respiração livre depende de um nariz desbloqueado. Há muitas correlações entre a função do nariz e a expressão da agressividade. Um felino, por exemplo, quando mostra sua agressividade arreganha os dentes e solta o ar fortemente pelas narinas. O mesmo ocorre com um touro antes de partir para o ataque. Soltar o ar pelo nariz ajuda a estimular a respiração e a circulação.

Cada pessoa tem um perfume, um odor característico e individual; distingui-lo dos demais significa reconhecer a identidade do outro e, também, poder relacionar-se com o outro.”

“Boca:

A boca é a porta de entrada da nutrição. É a vida pela qual se assimilam os alimentos, sentem-se os sabores e leva-se a energia para dentro do corpo.

Em terapias corporais, mobilizar a boca implica ativar a capacidade de receber, de aceitar, de ser nutrido e, também, de saber recusar o alimento estragado. Ensina-se a abrir a boca para deixar entrar o que nutre e, a fechar, mostrando os dentes, para impedir a entrada daquilo que fará mal.

Por defesa, algumas pessoas mantêm a boca constantemente tensa e “fechada”, em uma atitude de recusa do que vem dos outros, pois elas têm extrema dificuldade em receber. Outras, por outro lado, mantêm a boca permanentemente aberta e acreditam que têm de engolir tudo. Outras, ainda, abrem a boca e esperam o alimento vir (de onde não há) e ficam o tempo todo se sentindo vazias. 

Saber abrir e fechar a boca é, também, saber quando abri-la ou fechá-la e onde buscar o alimento e o amor que nutrem.”

“Boca e Pescoço:

Por meio das cordas vocais e com a ajuda da língua, pode-se falar e expressar idéias. A fala PE uma das formas de expressão que melhor comunica o que se quer dizer, mas, às vezes, oculta aquilo que o indivíduo realmente pensa e sente. Por isso, a fala pode ser um instrumento de comunicação dissimulada, diferentemente da linguagem corporal, que expressa o que não é possível ocultar.

O pescoço, por sua vez, é a sede do “ideal do eu”, daquilo que se gostaria de ser. Uma pessoa que idealiza e gosta de ser idealizada, apresenta postura altiva e pescoço ereto. O pescoço é a sede do narcisismo. Um pescoço duro, rígido e forte pode cortar a conexão entre a razão (cabeça) e a emoção (peito). Todavia, o pescoço firme no bebê indica um bom grau de desenvolvimento neurológico.”

“Peito:

No peito, mora a identidade, é a sede do eu. Quando se diz “eu”, bate-se no peito, onde estão os pulmões e o coração, ou seja, a vitalidade, a circulação e as emoções. Desde a mais tenra idade, o bebê ao sofrer qualquer estresse bloqueia, em primeiro lugar, a respiração e o sentir. 

A dor paralisa, portanto, respirando menos, sente-se menos dor e, também, menos prazer. Para voltar a sentir prazer e amor é preciso respirar profundamente e deixar que a dor presa no peito se solte.

Ainda ligados ao tórax, estão os braços direito e esquerdo, como dois caminhos, duas possibilidades a seguir, a ambivalência. E, se há duas alternativas, quem decide? Novamente, o peito. O peito, o sentir, fornece o limite, pois o caminho é escolhido com base naquilo mais significativo e importante emocionalmente, abrindo-se mão da outra possibilidade, por mais doloroso que isso possa ser.

Terapeuticamente, para trabalhar o peito é necessário lidar com a respiração, soltando a tensão das costas, deixando os sentimentos aflorarem. O peito “presente” significa a identidade, a sensação de se ter uma casa aonde voltar; é a referência de quem somos e do que realmente importa para cada um; é a escolha do caminho.”

“Diafragma:

O diafragma divide o peito do abdome, ou seja, separa a sede dos sentimentos da sede das sensações viscerais. O diafragma tenso impede a respiração tranqüila e inibe o peristaltismo. Fica-se como que suspenso no ar, sem poder fixar os pés no chão. 

No diafragma está a sede do masoquismo, pois graças a sua constante ansiedade, o masoquista prende quase completamente a mobilidade do diafragma. 

Ao visualizar alguém que se defende por medo vê-se alguém que contrai a barriga (e o diafragma) e fica com a respiração curta e presa.

Corporalmente, trabalhar o diafragma ajuda a liberar o peito e conectá-lo com as vísceras. Integra as emoções com as sensações viscerais (o frio na barriga, a fome, etc).”

“Abdômen:

O abdome contem as vísceras e as sensações instintivas. A sensação de medo “dá frio na barriga”. Quando alguém atacado, física ou verbalmente, contrai o abdômen. Crianças pequenas alteram rapidamente seu ritmo intestinal ao sinal de qualquer problema. 

No abdômen está também a “primeira grande boca”, conforme descreve G. Ferri (36), ou o cordão umbilical, uma área frágil e extremamente sensível do corpo, por onde se recebe o alimento e o sangue durante a gestação.

Nas terapias corporais, trabalhar o abdômen suavemente permite que a pessoa entre em contato com seus medos, instintos, sensações viscerais e percepção do ambientes em um nível mais sutil que o dos olhos.”

“Pelve:

A pelve está ligada aos órgãos reprodutores e sexuais. Os ovários, o útero, o pênis e a vagina. Está conectada às pernas e, finalmente, à bexiga. 

A pelve e os membros inferiores conferem grande mobilidade ao corpo, a possibilidade de ir e vir e os encontros de grande energia e sensualidade. 

Um bloqueio nessa região ocasiona distúrbios sexuais e dificuldade de a pessoa mover-se de uma situação para outra.

Terapeuticamente, trabalhar com a pelve possibilita apoderar-se da sua potência, sensualidade e sexualidade, além da capacidade de adaptação ao meio e de expressão.”

“Braços e Mãos:

Os braços são órgãos da ação. Por sua localização, na altura do peito e sua mobilidade, os braços simbolizam aquilo que ativamente se traz para perto do coração ou que se afasta dele.”

“Pernas e Pés:

As pernas e, finalmente, os pés representam a mobilidade, o movimento, o fixar-se ao solo para, depois, novamente sair em direção ao mundo. As pernas representam a postura e a firmeza do individuo no mundo real.”