Leituras

Auto-regulação da vida cotidiana - Carolina Papini.

A auto-regulação foi um conceito muito usado por Wilhelm Reich, pai da psicoterapia corporal, para descrever a capacidade que todo organismo tem de respeitar e deixar fluir sua condição biológica em prol da saúde física e psi-emocional.

Podemos observar o movimento espontâneo da auto-regulação quando nos machucamos com um corte na pele. Células, fibras e tecidos prontamente se mobilizam para reorganizar a área do corpo que foi agredida e isto acontece naturalmente através de todo processo de cicatrizarão, está além de nossa vontade ou permissão, é autônoma e visa restituir o equilíbrio do organismo.

Então porque as nossas feridas emocionais do passado não cicatrizam com essa facilidade? Porque determinadas experiências tem a capacidade de nos deixar marcas por dias que se transformam em meses e anos? A resposta está intimamente ligada à inibição da expressão de sentimentos de medo, tristeza e raiva.

Não é raro ouvirmos desde a infância que o medo, tristeza e raiva são sentimentos maléficos, crescemos com certos tipos de crenças como "não precisa sentir medo", "tristeza é uma sombra negra" ou "tristeza? Deixa de frescura!", "que feio sentir raiva, você tem que amar", entre muitas outras conforme se estrutura a dinâmica familiar.

Paralelamente às crenças, nos estruturamos também a nível corporal criando as couraças musculares que nos dão corporalmente a sensação mínima de segurança para nos mantermos vivos. São muros que erguemos como uma proteção mas que infelizmente na vida adulta servem como prisão que abriga os sentimentos de medo, tristeza e raiva que não foram aceitos. Quando adultos, sem saber usamos parte de nossa energia vital para conter estes sentimentos e está inibição impede que o movimento pulsional da auto-regulação aconteça.

Através da análise da história de vida dentro do setting terapêutico, o cliente pode ser levado a entrar em contato com essas emoções e a expressa-las com a garantia de que será aceito por seu terapeuta. Quando existe expressão da emoção a auto-regulação acontece, o processo de cicatrizarão das feridas emocionais começa a se desenvolver e quando este processo acaba o cliente liberta uma parcela de sua energia vital que usava para conter as emoções do passado e passa a usá-la como potencial de alegria e prazer no presente.

Neste momento o cliente pode ampliar seus olhares para a vida e entender que a raiva é tão real quanto o amor, a tristeza é real como a alegria, o medo é real como a coragem. Esses sentimentos fazem parte da vida pois somos seres relacionais e quando os aceitamos temos condições para administra-los. Dentro de nossas possibilidades podemos sentir raiva sem destruir o outro ou a nós mesmos, podemos sentir o medo como termômetro de auto-preservação, podemos sentir a tristeza como uma maravilhosa oportunidade de reinventar a vida para melhor. Quando nos permitimos experienciar essas emoções nos tornamos mais corajosos e abertos para viver e suportar o amor e a alegria.