Leituras

Pensamento, sentimento e ação - Carolina Papini.

Vamos ao que interessa: falar sobre o que não interessa ou o que não deveria interessar.

Entre chegadas e partidas nos relacionamos com os seres a nossa volta, a cada encontro damos um pouco de nós e recebemos do outro.

Existe aquela pessoa que, quando em contato, percebemos plenamente sua presença, é aquela que misteriosamente faz o tempo passar mais rápido, é a pessoa com a qual espontaneamente entramos em ressonância, desperta o melhor que há em nós e suporta com paciência os momentos em que o melhor não é tão bom assim. Temos um encontro real e sincero.

Existe também a pessoa com a qual inevitavelmente nos relacionamos e temos a sensação de que ela não está ali. É aquela que fala, fala, fala e não diz quase nada, que verbalmente nos passa uma mensagem, mas corporalmente está dizendo outra.  Estamos falando daquela pessoa a qual sentimos que não deu “liga”.

A segunda pessoa citada acima possui, em função de sua trajetória de vida, uma visão embaçada da realidade, sente que muitas vezes seus pensamentos, sentimentos e ações estão embaralhados e desconectados, ela sente de determinada maneira, pensa de outra e age em desacordo. Não podemos dizer (apesar de parecer) que esta pessoa é falsa, ela simplesmente não sabe como viver em meio a tanta desconexão, anda em círculos e se cansa, cansa o outro. É aquela refém de si mesma e que “entrega os pontos” em qualquer adversidade, pois ainda não possui grounding para se sustentar sobre as próprias pernas.

A primeira pessoa do encontro acima é aquela que carrega dentro de si a unidade “pensamento, sentimento e ação”, isto é, existe uma congruência entre o sentir, pensar e agir, ela está integrada.

Diferente do sujeito desconectado, aquele que está conectado com seus pensamentos, sentimentos e ações, não é depressivo, nem eufórico. Pode em alguns momentos, como qualquer ser humano, se sentir triste ou entusiasmado, entretanto não tem mudanças brutas de humor, existe uma dosagem, a qual espontaneamente faz com seu bem-estar se restitua.

O individuo conectado com seu pensamento, sentimento e ação, não possui ressentimentos, as feridas emocionais da infância que carregou durante muito tempo, foram cicatrizadas, hoje ele reconhece o seu ponto fraco e muito mais do que isso, a melhor maneira de se cuidar e alimentar emocionalmente. Quando necessário sabe expressar seu desconforto, não o guarda para mais tarde remoer e nem o convida para morar em seu corpo.

Não possui inveja. Caminha para a realização do desejo que pulsa em suas próprias veias. Tem garra para conseguir seus anseios materiais, mas também se sente em paz nos momentos em que compreende que o infinito prazer está em ser e não em ter, quando compreende que na respiração profunda e no encontro dos olhares, o carro do ano e o celular de ultima geração não possuem importância.

Não é passivo e não reclama da vida. Entende que o responsável pelos prazeres e desprazeres de sua vida não é ninguém além dele mesmo.

Não é preconceituoso. Goza da vida com os seus, entretanto não cria seitas fechadas, está aberto para novos encontros, inclusive com aqueles que podem estar em grande esfera da vida, desconectados, pois reconhece a desconexão em parte sua trajetória e relembra os momentos em que lhe olharam nos olhos e fizeram o convite de vir para a realidade da vida.

Não se sente superior, nem inferior e nem igual. Reconhece e respeita a originalidade que cada ser carrega em si.

A psicologia corporal acredita que a depressão, euforia, ressentimento, inveja, passividade, preconceito, superioridade e inferioridade são pequenos exemplos, entre muitos outros, de coisas que interessam, chamam a atenção e entram naturalmente na vida de muitas pessoas, mas que não deveriam. Infelizmente são estas as questões que muitas vezes dão ‘gás’ a vida de certas pessoas e as oferece a sensação de vida (um falso senso). Existe um grande preço a pagar por isto, como a insatisfação e, em grande escala, as doenças psicossomáticas.  

A bioenergética visa a integração entre pensamento, sentimento e ação. O terapeuta, que já passou por esta desconexão como qualquer outra pessoa e que através do seu processo terapêutico pessoal pôde encontrar seu centro, acredita que a congruência pode também levar seus clientes a um senso pleno de segurança e de estar vivo.

A relação ‘terapeuta e cliente’ é uma puramente uma relação entre duas pessoas que visa restituir a unidade daquele que procura a terapia. Fazemos isto através de olhares, palavras e movimentos. A grande riqueza deste encontro é poder ser humano e crescer, com outro ser humano.