Leituras

Sobre a ansiedade - Carolina Papini.

Todas as pessoas em alguma etapa da vida já entraram em contato com a ansiedade, ela é uma reação do organismo a estímulos que são percebidos como perigosos e nós não estamos isentos de receber sua visita.

É muito comum a expressão que fulano "sofre de ansiedade", o sujeito sofre por ela e consequentemente vive de maneira insatisfatória com o mundo.

Qualquer conjunto de circunstâncias que interfira na operação das funções vitais a um organismo dará margem a ansiedade. Como exemplo podemos citar aqueles que sofrem de alterações no ritmo cardíaco ou possuem qualquer obstrução do processo respiratório.

A ansiedade também encontra solo fértil naquelas pessoas que construíram defesas para si mesmas ao longo da vida, vamos entender melhor este processo tão comum em nossas vidas.

Considere uma criança que por natureza é dotada de espontaneidade e se relaciona com o mundo com liberdade. A medida que esta criança se depara com obstruções das ações espontâneas ela forma defesas a nível psíquico e muscular para inibir seus impulsos.

Conhecemos várias falas ou ditados que dizem respeito a estas obstruções, como por exemplo, "engole este choro", "chorar é coisa de menina", "só criança feia faz isso", "Não! É muito perigoso!", "Criança boazinha é criança quieta, educada e bem comportada". É sabido também que muitas pessoas apenas com um olhar do pai, mãe ou figuras de autoridade, já continham seus impulsos. Enfim, são as ações e falas por parte dos adultos que resultam em repressão, rejeição, privação, sedução e frustração para com a criança e seu desenvolvimento natural e espontâneo.

Com o passar do tempo estas defesas (psiquica e muscular) tornam-se estruturadas no corpo formando tensões musculares crônicas e acompanham o individuo pela vida adulta o fazendo responder de modo especifico a diversas situações que o mundo o coloca.

O que isto tem a ver com a ansiedade?

Esta defesa que erguemos inicialmente para nos protegermos de algumas emoções e sensações (como magoa, rejeição entre muitas outras), na vida adulta fica com a função de nos proteger contra os ataques de ansiedade. Ficamos protegidos e ao mesmo tempo encarcerados atrás das grades de nossas defesas estruturadas. Na medida em que a quantidade de sentimento que flui pelo corpo estiver dentro destes limites/defesas/tensões musculares, não haverá ansiedade. Acontece que a vida nos chama, lidamos no dia a dia com diferentes níveis e intensidade de sentimentos e se a excitação do corpo aumentar, os sentimentos forem intensos e buscarem atravessar a defesa a ansiedade aparecerá.

As defesas que anteriormente serviram como proteção hoje em diferentes graus servem como nossa própria prisão, elas dão margem a uma correspondência limitada com o mundo. Podemos aqui citar um exemplo de uma pessoa que tem grande ansiedade ao se expor ao publico. Se ela não tivesse desenvolvido tantas defesas anteriormente, certamente seu contato com o mundo seria mais espontâneo, viveria sua auto-expressividade com naturalidade e poderia se expor a uma, duas, cem ou milhões de pessoas, pois tem confiança e consciência de si mesma, não ficou recuada em uma posição defensiva e ancorada ao medo (e as outras emoções citadas anteriormente).

Estas experiências (tanto da construção de defesas quanto da capacidade de auto-expressão) tem intensidades diferentes para cada pessoa, correspondente as suas experiências infantis.

Podemos concluir que é a presença de defesas que predispõe uma pessoa à ansiedade. Na terapia auxiliamos o cliente a se conscientizar de suas defesas e que ele não precisa mais ficar em uma postura defensiva (como foi necessário na infância). Na ausência de defesas ou no momento em que elas cedem, não há ansiedade, mas apenas prazer. Auxiliamos também a pessoa a compreender sua ansiedade e descarregar a excitação por meio da expressão de sentimentos (aqueles mesmos sentimentos responsáveis por criar tantas defesas e os mais atuais).

Quando as defesas cedem e o caminho da auto-expressividade está desobstruído, o nível energético pode ser mantido num alto teor de excitação, tendo como resultado um corpo que vibra, responsável e livre para viver a vida!

"A capacidade de suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem se refugiar na rigidez, anda de mãos dadas com a capacidade de aceitar a felicidade e dar amor." Wilhelm Reich.